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Esse artigo está sendo trazido a vós com o objetivo de refletir sobre a matriz tática do xadrez. Para compreender melhor essa ideia de matriz serão trazidos novos significados para esse termo.

Na matemática, como foi possível ver na figura do artigo anterior, as matrizes têm a forma de um quadrado e abrigam símbolos dispostos em linhas e colunas. Nesse contexto, elas comumente são utilizadas para resolver sistemas de equações lineares. 

Um sistema de equações lineares contém algumas variáveis que se dispõem em equações dentro do universo de conjuntos finitos, ou seja, podem existir variáveis x,y e z com algarismos que que satisfaçam à todas as equações do sistema simultaneamente como se pode ver no exemplo da figura abaixo:

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Figura a. Fonte: Wikipédia

Observando isso é possível compreender o seguinte: os cálculos do xadrez podem ser comparados a equações lineares e as matrizes do xadrez podem ser formas distintas de atingir os objetivos do jogo

Por exemplo: no início da prática do xadrez clássico, antes ainda da era de Steinitz, o objetivo principal do xadrez era dar xeque mate ao rei. Não deixou de ser, é claro, mas com o tempo foram surgindo outros objetivos específicos que permitem atingir o objetivo principal a curto, médio e longo prazo, como dominar casas, colunas e diagonais, por exemplo.

Dessa forma, as matrizes do xadrez que vos apresento aqui são diferentes formas de pensar e planejar para atingir o objetivo principal de dar xeque mate ao rei inimigo cada uma a seu modo. A matriz tática, que é a matriz da qual vos falarei aqui, se notabiliza pela criatividade. Talvez seja a matriz filosoficamente mais bela e menos coerente ao mesmo tempo, embora os movimentos que dela se originam possam ser dotados de muita coerência lógica. Isso mesmo, um completo paradoxo! Assim como os muitos outros existentes no xadrez e que o tornam esse jogo tão admirável.

Por que digo isso? Porque a palavra tática, isoladamente está associada a um significado tal qual “meios de se fazer alguma coisa”, o que é diferente de uma combinação no contexto do xadrez, que seria algo como “uma realidade se transformando”. Vocês já observaram que uma combinação vencedora, seja em linhas de mate ou de qualificação material ou posicional, geralmente advém de um ou dois lances táticos que a iniciam? O lance tático é, portanto, um lance inovador, inesperado e inventivo, que permite transformar a realidade de uma determinada posição de uma partida. Fazendo um link com o artigo de combinações do Varela, os lances táticos surpreendem e por muitas vezes condicionam as respostas do oponente a movimentos forçados levando a variantes vencedoras, seja com mate ou não.

Lembrem-se do que foi dito no artigo anterior, as matrizes do xadrez estão entrelaçadas de alguma forma, pois um determinado lance pode servir a propósitos estratégicos, táticos e posicionais ao mesmo tempo, por exemplo, dependendo o ponto de vista com o qual você observá-lo. A complexidade desse jogo é algo inexplicável! Desse modo, considerando o que foi exposto, podemos associar a tática com a beleza, a arte estética no xadrez.

As táticas podem estar presentes a qualquer tempo numa partida, tanto que o GM E. Lasker chegou a afirmar certa vez: “chess is 99% tactics”. Porém, elas podem ser traiçoeiras e o porquê disso eu lhes mostro a seguir.

Vejam esse diagrama, estamos apresentando uma jogada em que o cavalo ameaça o rei e a dama ao mesmo tempo, uma das coisas subjetivamente mais prazerosas do xadrez, a tática da dupla ameaça.

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Diagrama meramente ilustrativo
(negras jogam)
Contudo, observe nesse outro diagrama o quão sedutora é essa tática, pois a mesma jogada realizada nesse novo contexto implica em uma perda de peça de modo infantil, porque havia um peão posicionado ali capaz de capturar o cavalo.
daigrama2 artigo tatica.png
Diagrama meramente ilustrativo
(negras jogam)

Isso demonstra o quão sedutora pode ser uma tática no xadrez, a ponto de nos fazer perder a razão. Se a comparássemos com a besta mitológica grega de “Cila”, ela teria a face de uma bela ninfa, mas da cintura pra baixo ela teria serpentes e cães selvagens famintos. É a matriz mais bela e também a mais arriscada e que envolve raciocínios muito profundos. Não vou cometer o erro de dizer que ela requer os raciocínios mais abstratos, porque todas as matrizes requerem pensamentos avançados, sejam eles concretos ou subjetivos.

Mas eu vos convoco a observar mais um diagrama, para finalmente exemplificar a profundidade dessa matriz.

daigrama3 artigo tatica.png

Diagrama meramente ilustrativo
(negras jogam)

O modo como nós percebemos uma coisa pode nos ajudar ou nos ferrar no xadrez, e pode nos ferrar se nós nos ativermos a visões restritivas. Desse modo pode ser útil seguir este conselho: se achar uma jogada boa, procure uma ainda mais efetiva. Se você não a encontra “desse jeito”, tente encontra-la de “outros jeitos”. Afinal, você não precisa se abster da sua linha de raciocínio para isso, mas você pode testar todas as possibilidades que a sua linha de raciocínio trouxe até você.

Sendo assim, por vezes, aquilo que se apresenta como um erro infantil, ou uma jogada sem futuro, pode ser justamente o início de uma grande combinação vencedora. Vejam como ficou a perda do cavalo, considerada infantil no diagrama anterior, com essa nova disposição de peças.

Porque a matriz tática é tão complexa e tão sedutora? Ela pode te dar os maiores ganhos, mas também as maiores perdas ao mesmo tempo, isso é fato, mas talvez ela nos encante pela arte que ela produz ou por sua beleza estética. Uma dica muito saudável seria refletir sobre o seguinte pensamento, que até é de cunho muito mais espiritual do que enxadrístico, embora se verifique com frequência nos tabuleiros: ajuste-se àquilo que você tem, não queira mais do que você não precisa, pois nessa existência tudo nos será dado no momento em que tivermos prontos para receber.

Eu tenho observado que frequentemente os erros de cálculo associados à matriz tática do xadrez começam através de jogadas em que um dos lados visou capturar alguma peça a mais e não tinha fundamento teórico para prosseguir, ou justamente a armadilha tática do adversário consistia em “oferecer” essa peça a mais para ser capturada.

Enfim, com isso tudo eu quero dizer a vocês que tática é pra quem gosta de aventuras, quem não tem medo do perigo. Todavia, um pouco de prudência sempre pode ser bom, pois você não precisa sair se lançando e sacrificando tudo como se vocês fosse um soldado de infantaria correndo sozinho e desarmado num campo de batalha. Pode ser interessante você ir começando devagarzinho, preparando o terreno para depois lançar um maravilhoso ataque, mas isso teria mais a ver com o jogo da matriz posicional que veremos em breve…

Movam seus peões!

Alexandre Herzog

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