isci_chessOs Principios Fundamentais

A teoria moderna – nos ensina a história – se baseia em um conjunto de princípios estratégicos fundamentais divulgados no século XIX por Steinitz e seus discípulos. É evidente que o estudo das aberturas deve começar por eles, já que permitem não somente compreender o espírito das linhas do jogo reconhecidas e analisadas pela teoria, mas também elaborar a prática de um plano de ação correto quando se encontra diante de uma abertura que se desconhece. Correto e sobretudo lógico. Estes princípios tem suas origens diretamente ligadas as leis dialéticas que regem o Xadrez e constituem a fonte principal do enriquecimento intelectual que proporciona o jogo.

Pese a sua coerência e simplicidade, a exposição destes princípios primordiais – e elementares – não é, entretanto, coisa fácil. Muitas pessoas tem tentado com mais ou menos êxito.

Alguns, por causa de uma abordagem demasiadamente erudita, falham em deixar as informações acessíveis para a média dos jogadores, e que no final mais confunde do que esclarece as idéias. Por outro lado, outras pessoas – mais numerosas – ao desejarem ser simples, caem no outro extremo, e frequentemente com resultados piores que os anteriores. Se contentam em expor resumidamente os princípios ao invés de explicar mais profundamente.

Ensinar os princípios sem explicá-los – ou melhor, sem ter cuidado – só oferece resultados limitados e a curto prazo, os resultados são irrisórios em comparação com a extratificação do pensamento que isso implica.

Consequentemente, acreditamos que afim de preparar uma pessoas para um estudo frutífero sobre as aberturas, se deve fazer algo a mais, do que simplesmente anunciar os princípios fundamentais. É essencial analisar o seu significado e o seu mecanismo com profundidade.

A posição inicial: Primeiras Observações

Os princípios fundamentais que nos preocupam são, por definição, universais, ou seja, se aplicam a todas as aberturas. Seria insuficiente deduzir a partir da análise de uma variante ou de uma posição derivada a partir de uma abertura, já que a priori, nada nos assegura que as deduções que façamos são verdadeiramente genéricas e válidas para qualquer abertura.

Então, por onde começamos nossos estudos?

O bom senso nos diz que, se queremos encontrar princípios que se apliquem a todas as aberturas, o mais lógico é analisar a posição que a origina, a posição inicial. Nada mais razoável, que investigar a essência da teoria na posição matriz do Xadrez, já que se conseguirmos demonstrar nela a existência de certos fatos, de certas leis, podemos então considerar como corretos – e somente estes – verdadeiramente genéricos e universais.

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Lembremos que vamos nos comprometer proceder com juízo e não admitir nada que não seja verificado diante dos nossos próprios olhos ou que não venha por intermédio das regras do jogo. Este método tende a ser lento e muitas vezes, aparentemente ingênuo, mas será plenamente justificado pelo fato de que é claro e inteligível para todos. A evidência nos permite observar o diagrama acima, e fazer as seguintes afirmações:

  • O tabuleiro tem 64 casas. a metade é branca, embora a outra metade seja preta. 32 (a metade mais uma vez) estão ocupadas por peças, embora as 32 restantes estão livres. É evidente também que o conjunto destas casas constitui o espaço em que estas peças vão progredir.
  • Estão distribuídos em dois lados. um Branco e o outro Preto. Cada lado se compõe por 16 peças, destes a metade são os peões.Todas tem o poder de se mover e capturar. Agora, como todo movimento provém de uma força motriz, estamos em condições de afirmar que as peças possuem uma força que lhe são conferidas pelas regras do jogo. Há de se destacar, entretanto, que nem todos se movimentam do mesmo modo. Existem, inclusive, nítidas diferenças em seus movimentos, podendo alguns se deslocar por várias casas (a Dama, a Torre) e outros por muito menos (o peão, o Rei). Assim, podemos dizer que todos tipos de peças não possuem a mesma quantidade de força, algumas tem mais e outras menos e a a força de uma peça evolui em função do número de casas que domina. O conjunto de peças, representa portanto, o elemento força do jogo, elemento que se calcula pela envergadura dos seus movimentos.
  • Finalmente – não vemos sobre o tabuleiro, mas as regras nos indicam – cada lado, começando pelas Brancas, deve fazer uma jogada e somente uma, em alternância com seu adversário. Como é durante estes intercâmbios de jogadas quando a força progride no espaço, pode-se afirmar com razão que o conjunto destas jogadas constitui o elemento tempo do Xadrez.

Simetria

Estas observações são muito evidentes, mas nos mostram até que ponto todos os elementos da posição estão divididos de igual modo. A metade das casas são pretas, o restante brancas, uma metade está livre, a outra ocupada; as forças, metade brancas, metade pretas, metade das peças, metade dos peões, são idênticas nos dois lados; por último se revezam com regularidade para jogar.

Estes elementos, o espaço, a energia (ou força) e o tempo, constituem as três dimensões do jogo, estão repartidos os três, em duas metades iguais e simétricas. A simetria que existe é rigorosa, podemos constatar.

Em primeiro lugar, é evidente que os dois exércitos estão dispostos de modo simétrico. Pode-se ver que em sua disposição interna, existe uma simetria entre cada uma de suas metades, já que cada peça encontra seu mesmo oponente na ala oposta.

Por exemplo, a Torre Branca do canto esquerdo do tabuleiro tem uma peça idêntica colocada no canto direito; o Cavalo da Dama a mesma coisa e assim sucessivamente. Existe uma profunda correspondência entre as duas únicas peças que não tem par: o Rei e a Dama. Em primeiro lugar, o fato que estas peças formam um par, já mostra, mesmo que do ponto de vista simbólico, que existe uma relação entre elas. Mas pode-se ir mais longe:

O Rei é a peça mais importante de todas, poste que a sorte de toda a partida repousa sobre suas costas. Por outro lado, a Dama é, de longe, a peça mais poderosa do tabuleiro; é dizer, do ponto de vista do combate, a peça mais preciosa. O Rei e a Dama, em conseqüência, ocupam por razões diferentes mas complementares, um lugar no primeiro plano. E é de suma importância de onde se posiciona a simetria, sútil mas real, que as une.

No diagrama abaixo temos o quadro completo desta simetria. Esta constatação, extraída da observação dos fatos, constitui o primeiro resultado de nossas análises, cuja etapa seguinte, vai se dedicar, naturalmente, ao estudo das implicações de se derivam dela.

Mas, o que é Simetria? É a correspondência exata entre as duas partes de de um plano dividido por uma reta mediana. Conhecendo o caráter simétrico da posição inicial, podemos com toda lógica, supor a existência de uma ou mais linhas de separação deste gênero.

Basta olhar com atenção no diagrama abaixo, para dar-se conta que uma reta horizontal – chamamos de y – que passa entre a quarta e quinta fileiras, divide a posição em partes absolutamente simétricas. Mas como o tabuleiro é quadrado, está claro também que uma reta vertical – chamamos de x – que passa na quarta e quinta coluna, dá idêntico resultado.

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O Centro

A noção de simetria, nos conduz a dirigir nossa atenção para o centro. Se queremos prosseguir nossos estudos de maneira consciente, precisamos perguntar agora em que diferem estas casas uma das outras, ou melhor, que importância – se é que tem alguma – lhes confere a posição central.

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Examinemos, para tentar responder estas perguntas, os peões da Dama e do Rei de cada lado, são as únicas peças capazes de ocupar o centro imediatamente. Podemos perceber que possuem esta particularidade única na posição inicial: estão protegidos por pelo menos 4 peças: um Cavalo, um Bispo, o Rei e a Dama. Este fato é muito notável, em vista que os demais peças, são protegidas somente por uma outra peça, menos as Torres que estão sem proteção inicial.

É evidente que a posição do primeiro diagrama, postado no inicio do artigo, quase toda a energia está orientada nos peões centrais. Isto constitui em um sério indicio de sua importância estratégica e, indiretamente a importância das casas centrais.

Mas nosso método exige algo mais que indícios, quer provas. Assim é necessário irmos mais longe em nossas investigações. Já vimos que as Torres, que são as peças mais afastadas no centro, são igualmente as que estão mais isoladas do restante das forças, e não estão protegidas. O que dizer então dos peões das torres, as peças de xadrez mais excêntricas da família?

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Se olharmos atentamente, percebe-se que eles controlam apenas uma casa, ou seja, a metade dos peões centrais. Eles são, portanto, do ponto de vista energético,  são fracos para o jogo. No entanto, se fizerem uma captura, isto lhes permite deixar esta coluna, e desta forma poderão atacar duas casas como os demais peões.

Podemos concluir com certeza, que a posição deste peões na borda do tabuleiro, diminui seu rendimento de maneira considerável.

A pergunta que nos ocorre agora de maneira natural é saber se esta observação se aplica tanto para as peças como para os peões. O único modo de responder é comparar o rendimento das peças quando estão na borda do tabuleiro ou em um canto e quando estão posicionadas diretamente no centro.

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Começaremos colocando um Cavalo em uma posição central, outro perto da borda e outro em um canto. Perceberemos que o Cavalo posicionado no centro é quatro vezes mais poderoso que um Cavalo posicionado em um canto. Ao fazer este procedimento com as peças restantes, você poderá se dar conta por si mesmo, que as peças só podem mostrar toda a sua força, quando estão na posição central do tabuleiro. Esta regra tem somente uma excessão, a Torre. A Torre sempre controla no máximo 14 casas seja qual for a sua posição.

Os Princípios Fundamentais

Agora só nos resta formular, cientes dos dados que estudamos na posição inicial, os princípios que se deduzem dela.

Antes de mais nada, o combate que se trava a partir desta posição (a abertura) não é uma simples questão de entrar e matar. É demasiado simétrica, demasiado igual para que um dos lados possa – contra um jogo minimamente razoável – contar em dar mate, ou ganhar material a curto prazo. Conseqüência: O objetivo principal da abertura deve ser em primeiro lugar inverter o equilíbrio inicial das forças a favor de si. Somente quando tiver criado condições vantajosas estará preparado para buscar o mate, ou o ganho de material.

Evidentemente, o princípio estratégico fundamental na abertura, consiste em apoderar-se do controle do centro com tantas peças forem possíveis. Projetando suas ação por todos os lados (lembre-se do exercício de colocar o Cavalo em uma casa central) teriam toda a mobilidade requerida para atacar e defender, com rapidez e economia, todos os pontos nevrálgicos do tabuleiro.

O fato de que o domínio do centro seja uma condição preliminar e imprescindível para a vitória não tem nada de extraordinário. É o mesmo para qualquer jogo. Como poderia uma equipe de futebol, ou basquete, ou hoquei, controlar o jogo, sem controlar o centro? Sem ter o centro é, a menos que se espera que erros grosseiros do adversário, sonhar com mate sem controlar previamente o centro do tabuleiro.

Podemos, assim resumir os princípios em: igualdade de condições, o domínio do centro constitui uma vantagem decisiva; o objetivo fundamental da abertura consistirá em apoderar-se do controle das casas centrais (espaço) com um máximo de peças (energia) em um número mínimo de jogadas (tempo).

Estas são as idéias básicas que repousa a teoria. Pese a sua riqueza e diversidade, se elaboram diversas aberturas (Ruy López, Siciliana, Caro-Kann, etc.) baseadas em princípios gerais pouco numerosos e no fundo bastante elementares. Mas não se deixe enganar por estas aberturas: os princípios são de primordial importância. Devem ser bem assimilados, se você começar a jogar uma abertura corretamente mas evitar o seu  estudo, isto não será mais que um exercício de memorização tedioso e estéril.

Varela

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