Sneuroexadrez.jpgaudações enxadrísticas!

Este artigo vos é trazido com o objetivo de apresentar algumas reflexões acerca dos temas xadrez e neurociência.

Para quem não sabe, a neurociência é um ramo científico que se ocupa de estudar a anatomia do sistema nervoso, suas funções biológicas e como elas se relacionam com o resto do corpo. Portanto, preparem-se para ficar sabendo de uns nomes menos comuns, e por vezes estranhos, que as estruturas cerebrais recebem.

Assim como nas estatísticas e na teoria enxadrística, em que quando uma abertura nova era jogada levava o nome do jogador que a propôs, também ocorre muitas vezes na ciência de um determinado pesquisador descobrir uma estrutura nova ter o seu nome associado a essa descoberta. Apenas para verificar alguns exemplos temos a abertura Ruy Lópes, o Gambito Morra e a abertura Alekhine no xadrez e os corpúsculos de Krause e Meissner, e o complexo de Colgi. Para quem nunca ouviu falar desses nomes no contexto de neurociências, os corpúsculos aqui citados são estruturas corporais que estão relacionadas à percepção tátil do nosso organismo e o complexo de Colgi é uma organela encontrada em praticamente quase todas as células eucarióticas.

No universo desta disciplina científica, há estudos sobre o sistema límbico que é o centro cerebral das emoções. Nele, estão contidas estruturas cerebrais como o tálamo, o hipotálamo, o hipocampo, a amígdala e várias outras, cada qual desempenhando uma função específica. Desse modo, este grupo de estruturas é responsável direto pela maneira como acontecem as emoções no nosso organismo e estabelece uma importante relação com as estruturas que regulam a nossa memória.

E como de algum modo, isso poderia ter uma relação com xadrez? Simples, eu diria “elementar meu caro Watson”, citando o lendário detetive britânico Sherlock Holmes, personagem de Arthur Conan Doyle, não menos lendário médico e escritor Escocês. A relação está no fato de que determinadas posições ficam gravadas e podem repercutir afetivamente em nossa memória conforme os resultados que conseguimos ao jogá-las. Nossas memórias sobre as partidas normalmente podem ser descritas assim: “se naquela hora eu tivesse capturado o cavalo teria vencido o jogo, por que não o fiz?”; “você viu meu sacrifício de torre?”; “eu parecia o Kasparov!”; ou ainda, “você viu os meus peões sobrepujando a sua dama?”.

Nesses relatos é possível perceber conteúdos afetivos associados, ora com tom de cobrança pessoal como no caso referente ao lance de captura do cavalo, ora com tom de orgulho pessoal, reconhecimento e prazer nos demais comentários trazidos. Cabe ressaltar que quanto ao primeiro, ele pode ter algum sentido ou não, pois a situação que o originou pode ter vindo de um erro perceptivo no processo de avaliação da posição, o que o invalidaria se houvesse uma jogada concretamente mais eficaz que tivesse sido preterida em função da jogada que o jogador efetivamente jogou na posição.

Somos capazes de ter memórias afetivas de nossos adversários também, mas isso influencia de outra forma. Se nós temos uma imagem de competidor honesto e boa pessoa do nosso oponente, nós o recebemos mais calmamente e o nosso organismo se mantém em uma condição natural. Contudo, se vamos enfrentar alguém que temos como inimigo, ou ainda, nos emite vibrações negativas, o nosso sistema nervoso se posiciona como se estivéssemos diante de uma ameaça. Isso pode ocorrer também contra jogadores os quais nós superestimamos, ou contra jogadores titulados, os quais o próprio título impõe certa pressão psicológica devido à representação social coletiva de um nível mais elevado de jogo que está atrelada ao título.

Por isso, uma das máximas que eu defendo é que pode ser muito útil a um jogador de xadrez, além de estudar aberturas, meio jogo, táticas e finais, compreender a si próprio, o funcionamento do seu próprio sistema nervoso.

Jogadores notavelmente espetaculares como Carlsen e Karjakin, que disputaram o mundial de xadrez clássico recentemente, além de reunirem muitas habilidades relacionadas ao jogo, possuem uma extraordinária capacidade mental. Karjakin inclusive, contando com equipe de psicologia esportiva em seu staff, o que Carlsen está avaliando implantar devido ele ter observado boa influência sobre o jogo do adversário nessa disputa. É admirável a resistência mental que Karjakin apresentou durante aquelas partidas, quando Carlsen realizava ataques que normalmente deixam seus adversários constrangidos, assim como o ucraniano, com sua postura defensiva torturava Carlsen, ao encontrar sempre os melhores lances para suas investidas.

Considerando o xadrez como um duelo mental, saber um pouco sobre neurociência e como ela se relaciona com o esporte pode ser algo interessante para buscar uma evolução. O treinamento, além de teorias e técnicas enxadrísticas pode conter exercícios para evoluir no autoconhecimento e na gestão das habilidades emocionais e de memória, por exemplo, que constantemente são evocadas nas situações de jogo.

#pensenisso!

Movam seus peões!

Alexandre Herzog

2 comentários em “Neurociência e xadrez Parte 1: O sistema límbico

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