rei-de-espadas

1 e4 e5 2 f4 exf4

Anteriormente falávamos do Gambito do Rei e suas premissas teóricas. Comentamos que após o lance “f2-f4” surge o dilema: capturar ou não o peão? Muito bem, no presente artigo estaremos comentando algumas ideias que são possíveis quando fazemos a escolha pela opção de capturar o peão “f”.

Primeiramente, é importante compreender e aceitar que capturando esse peão estamos aderindo à proposta das brancas e lhes dando um tempo extra para desenvolver suas peças enquanto nós estamos evitando, com essa mesma captura uma eventual perda do nosso peão em “e5” ou o simples avanço do peão “f” até a primeira casa da nossa metade do tabuleiro. Embora essas duas jogadas sejam pouco comuns elas existem nessa posição, ao menos em um nível subentendido, se são melhores ou piores que outras é difícil dizer, talvez seja mais fácil pensar que elas não atendem a alguns dos princípios fundamentais das aberturas, os quais você pode relembrar lendo os artigos da série “dominando as aberturas em Xadrez” deste mesmo blog.

Mas e por que jogaríamos exf4? Qual seria a proposta das negras com isso? Estaríamos aceitando de bom grado esse “truque” das brancas para ganhar vantagem temporal e posicional? NÃO NECESSARIAMENTE! Boa parte do xadrez é paradoxal, ou seja, pode parecer uma coisa e ser outra ao mesmo tempo. Fazendo uma comparação com um iceberg, apenas a menor parte dele está sobre a água e é visível aos nossos olhos. O restante, a maioria dessa graciosa formação gélida está imersa no oceano, podendo ser inclusive ser uma diferença abissal entre o que se vê e o que está submerso. Isso fundamenta o referido paradoxo e também a ideia de que há duas mentes em batalha, cada qual com seus conceitos, visões de mundo e estratégia próprias. Por isso, pensar de modo profundo no xadrez pode ser um diferencial. Lembrem-se disso.

Muito bem, a posição abaixo mostra o tabuleiro após 2 … exf4:

gambito-do-rei-aceito

Nessas condições, como foi dito no artigo anterior, a ameaça virtual Qh4+ passou a ter fundamento, devido ao caminho livre para a Dama negra na diagonal d8-h4 e o apoio do peão negro que foi até a casa “f4” com a captura feita no segundo lance. Isso obriga o cavalo branco a dirigir-se a f3 para bloquear essa ameaça e manter a ordem natural dos planos das brancas, que envolve ainda desenvolver o bispo e rocar nos próximos dois lances.

A partir disso, é possível elaborar os planos das negras e existem diferentes formas para seguir o jogo a partir dessa sequência. Todas essas formas estão catalogadas no universo da categoria C30 na Encyclopedia of Chess Openings. Aqui serão apresentadas algumas dessas alternativas.

Temos:

Cunningham Defence

1 e4 e5 2 f4 exf4 3 Cf3 Be7

Nessa proposta, posicionando o bispo de casas negras em “e7” cria-se uma forte dupla de ataque para explorar a diagonal “d8-h4”, posto que o bispo será seguido e protegido pela dama negra. O cavalo posicionado em “f3” não é suficiente para defender essa ameaça caso as negras jogassem “Bh4+” agora, pois a dama o recapturaria e teria o apoio do peão em “f4”. Isso cria, portanto, a necessidade de uma providência por parte do exército branco. IMPORTANTE! Convém lembrar ao jogador de brancas que se quiserem manter o plano inicial da abertura, movimentos como “g3” e “h4” não o ajudam, pois modificam a estrutura posicional na ala do rei e requerem cálculos muito precisos e cuidadosos de jogadas posicionais. Desse modo, se a opção for manter o plano inicial a jogada ideal é 4 Bc4, não mais para simplesmente poder seguir com o plano original da abertura, mas para poder ter uma chance de fuga com o seu rei até a casa “f1” após 4 … Bh4+. Porque falo em fugir? Porque se optar por capturar o bispo negro com o seu cavalo você o perde em seguida capturado pela dama negra que estará sendo apoiada pelo peão em “f4” isso ocasionará um xeque que poderá te levar a complicações posicionais.

Defesa clássica, Abbazia, ou ainda, defesa moderna

1 e4 e5 2 f4 exf4 3 Cf3 d5

Com essa proposta, as negras ampliam a sua gama de opções ofensivas, podendo agora mover ambos os bispos livremente pelo tabuleiro nas diagonais que ocupam inicialmente, além de ameaçar o peão central branco posicionado na casa “e4”. Nesse caso, o melhor a fazer, por parte das brancas é capturar esse peão, antes que ele prossiga e cause dor de cabeça mais adiante.

Linha 3 … g5

As linhas com o lance 3 … g5 por parte das negras aparentemente desestabilizam a estrutura de defesa na ala do rei negro, mas ao mesmo tempo criam fortes ameaças para as brancas. As principais são o avanço do peão “g” até a casa “g4” e o posicionamento do bispo em g7, casa essa em que ele controlaria as ações na diagonal “g7-a1”. Isso poderia ainda ser utilizado como uma espécie de “fianchetto” posteriormente, caso as negras entendam que o seu rei ficaria seguro nesse tipo de posicionamento, considerando é claro que a proposta seja manter a luta toda nessa ala. Para as brancas é necessário conter essas ameaças e uma boa forma de fazer isso seria jogar “h3”, segundo o Komodo, pois se o peão avançar até “g4” ele incomodará bastante, mesmo sendo essa peça aparentemente tão desprovida de forças.

Contudo, as respostas catalogadas comumente mais usadas para esse lance são “h4”, “Bc4”, “d4”, “Nc3” numa série de sub-variantes catalogadas nos códigos C37, C38 e C39 da ECO.

Estatísticas

Estatisticamente falando a linha da defesa Cunningham tem é igualmente pouco jogada pelos jogadores de elite, apresentando uma estatística de 32,8% de vitórias das brancas contra 40,4% de vitória das negras. Já a linha 3 … g5, apresenta uma estatística de 40,7% vitórias das brancas contra 40,2% de vitórias das negras e a linha com 3 … d5 apresenta uma estatística de 31% vitórias das brancas contra 32,3% vitórias das negras, segundo a base do site chesstempo.com.

Alexandre Herzog

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