analiseSaudações enxadrísticas! Nesse artigo refletiremos sobre a tarefa de análise de uma posição de xadrez. Anteriormente, nós já identificamos a necessidade de observar e descrever a posição. Essas habilidades são extremamente úteis para ampliar a qualidade da sua análise. Contudo, é importante observar que na tarefa de análise costuma ser o início da perdição para nós, seres humanos. Absorvemos tantas dúvidas e mistérios que na hora de decidir acabamos cometendo imprecisões, erros e os famosos “blunders”. Mas por quê? Por que isso ocorre?

Simples, existem também nessa etapa detalhes concretos e detalhes subjetivos e isso já nos basta para nos movermos em direção ao “blunder”. Verifique o seguinte: foi feito o movimento Rxf3 nessa posição:

artigo-analise

(Boris_Mcqueen x ibo71-1-0)

Vamos tentar compreender o que a posição diz e que poderia ter influído para que o jogador das brancas optasse por esse movimento. A descrição da posição vai dizer que temos dama, rei, peões e par de torres no lado das brancas e dama, rei, peões e bispo no lado das negras, cada qual em sua posição específica. A análise, que começa agora, usará inferências a partir das regras do jogo e de conhecimentos de temas da teoria enxadrística para explicar a posição.

Ludek Pachman, em seu livro “a estratégia moderna do xadrez” sugere que observemos os seguintes tópicos para analisar uma posição:

  1. A posição dos reis.
  2. Relação material, isto é, igualdade ou superioridade material de um lado.
  3. O poder de cada peça.
  4. A qualidade de cada peão.
  5. A posição dos peões, ou seja, sua estrutura.
  6. Cooperação entre peças e peões.

Seguindo essas sugestões, nós observaremos nas três primeiras colunas as estruturas de peões têm ligeira semelhança e a quantidade de peões localizados ali é igual para ambos os lados. Nas duas colunas centrais somente as brancas têm um peão. As negras têm um bispo ali que está ameaçado pela torre de “d3”, que por sua vez ataca o peão negro em “f3”.  Ambos os reis estão na coluna “g”, mas o rei branco tem um peão a mais para lhe proteger e as damas estão frente a frente. Nesta breve descrição, já com algumas inferências, podemos ter uma ideia clara da posição.

Contudo, penso eu que poderíamos substituir o termo “o poder” de cada peça por, “a mobilidade” de cada peça. Talvez seja uma ideia mais reducionista, mas porque não? Muitas descobertas da humanidade partiram de pressupostos como esse. Nesse sentido, as brancas, que têm a vez de jogar podem considerar as seguintes informações para tomarem a sua decisão:

-Se as negras forem mover a dama, elas têm 13 opções de movimentos, sendo que os que aparentam ter mais sentido e lógica para a posição são “Qc1” e “Qg6” um com proposta de ataque e outro com proposta de fuga, temporária ou não.

-O bispo negro tem 5 opções de movimentos na diagonal, sendo aquelas aparentemente mais lógicas “Bc5+” “Be7” e “Bf8” também com propostas diversas.

-O rei negro está encurralado com apenas duas opções de movimento nas quais ele perde a dama após “Rh5”.

-Os peões em “a6” e “f3” não têm quem os defenda, mas o peão “f3” pode dar xeque na próxima jogada, iniciando ou não um ataque tático.

Com base nessas observações e descrições você já pode iniciar o seu processo de elaboração de planos ou de tomada de decisão, pois você já conhece todas as variáveis do desafio. Dos movimentos de dama e bispo, os mais perigosos são “Qc1+” e “Bc5+”, que dão xeque em seguida e os movimentos do peão “f”, que se feitos após um desses outros citados anteriormente pode, em tese, aumentar a força das negras na posição. Você já sabe, portanto, que o movimento que você escolher deve ser capaz de representar uma solução imediata ou em curto prazo para essas possibilidades e que você não tem controle algum sob a escolha do adversário, porque não se trata de uma variante forçada. Importante: prefira escolhas seguras, mas você também pode arriscar se você identificar boas possibilidades. Contudo, nunca se esqueça de considerar os recursos do adversário.

Com isso, agora entra o cálculo, pois você já tem condições de elaborar objetivos para serem atingidos pelos seus planos. Considerando que as negras só têm mais a dama e um bispo e as brancas têm o par de torres e a dama, uma ideia de sacrificar a Dama poderia ser interessante num sentido de enfraquecer a qualidade do adversário e ganhar um tempo para se posicionar melhor para o final do jogo. O engine Komodo 8 apontou um mate em 10 se for feita a escolha pelo sacrifício de dama (1. Qxh6 Bc5+; 2. Qe3 Bxe3+; 3. Rxe3 g6; 4. e6 gxf5; 5. e7 Kg7; 6. e8=Q f2+; 7. Kxf2 f4; 8. Re6 f3; 9. Rg6+ Kh7; 10. Qg8#). Entretanto, reparem que essa ideia segue lógicas estratégicas comuns ao que se poderia chamar de bom senso dentro da teoria enxadrística, você vai eliminando a resistência adversária e ampliando a sua própria força.

Outra ideia seria capturar o peão “f3” com a torre que está em “d3” e dobrar as torres nessa coluna, isso garantiria segurança para enfrentar as três hipóteses de ameaças adversárias listadas anteriormente. É uma lógica aparentemente menos efetiva e de cunho mais defensivo, visto que cria uma estrutura preparada para defender primeiro e contra-atacar em seguida. Essa foi a linha adotada na partida e o Engine do chess.com, plataforma onde essa partida foi disputada classificou-a como um “mistake”. Sendo ou não mistake, com essa linha eu venci o jogo em 6 lances (1Rxf3 Qc1+; 2 Rf1 Bc5+; 3 Kh1 Qxc2; 4 Rh5 g6; 5 Qe6+ Kg7; 6 Qf7#) e com a linha sugerida pelo engine eu teria vencido em 10.

Como este artigo não se propõe a sugerir ideias de como elaborar seus planos no xadrez, essas duas ideias que foram trazidas aqui para essa posição permitem evidenciar que sempre pode haver várias maneiras de vencer um jogo ou de fazer bons lances para a posição. Todavia, reparem o que aconteceu em ambas as formulações. Foi a integração das informações observadas no tabuleiro com as informações prévias sobre xadrez armazenadas em nossa memória (como o movimento de cada peça, temas táticos e etc) criando uma ideia para resolver a situação problema. Percebam que quanto melhor for a qualidade das informações absorvidas sobre a posição, da análise feita e da qualidade das informações armazenadas sobre xadrez, maior a probabilidade de criação de ideias e planos com lances bons ou até excelentes. Nesse sentido, reparem que os GMs costumam fazer ótimos lances porque eles têm uma vasta coletânea de informações sobre xadrez armazenadas em suas memórias, como padrões de posições, padrões de estratégias utilizadas por GMs clássicos, conhecimentos de linhas teóricas de várias aberturas e de vários finais, além é claro de um ótimo treinamento dos processos de análise de posições e de tomada de decisão.

Sendo assim, mais uma etapa vencida. Aguardem que em seguida virá o artigo que introduzirá a série da elaboração de planos no xadrez.

Movam seus peões!

 

Alexandre Herzog

 

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