Como avaliar uma posição no xadrez – parte 3 – Sob uma perspectiva tática

taticaSaudações! Antes de partir para a série sobre como montar um plano no xadrez eu visualizei a possibilidade de escrever novamente sobre como avaliar uma posição e, desta vez, sob uma perspectiva tática. Quem leu a série de artigos sobre as matrizes do xadrez, talvez lembre o que foi dito sobre a matriz tática, é pra quem gosta de adrenalina e de correr riscos. Há quem prefira uma segurança posicional e há quem tente encontrar um equilíbrio entre essas propostas para formar um estilo de jogo mais abrangente, mas o fato é que saber sobre tática pode ser algo muito importante para um jogador deste esporte.

No artigo anterior foi sugerido que você observasse uma série de situações no tabuleiro: posição dos reis, estrutura de peões, qualidade de cada peão e mobilidade das peças. Todos esses detalhes normalmente são muito significativos para orientar a sua elaboração de planos e determinar a sua decisão sobre que movimento jogar. Contudo, a lógica de plano que foi utilizada na partida da posição que foi trazida no último artigo remete à matriz posicional, ou ao menos a uma variante mais conservadora dela, pois considerou defender primeiro.

Numa avaliação de posição seguindo os pressupostos da matriz tática ocorre o principal desafio perceptivo do xadrez, pois normalmente você vê uma determinada peça numa posição e infere sobre as possibilidades de movimentos dela de uma forma e fica preso a essa forma apenas. Como assim? Simples. Você visualiza em seus cálculos que o peão em “d4” vai capturar em “e5”, mas numa mesma situação ele pode permanecer onde está ou ainda avançar a “d5” ou capturar em “c5”, cada uma destas com suas próprias consequências no decorrer do jogo.

É comum o nosso cérebro escolher uma linha principal e nós irmos seguindo-a, em detrimento das outras. Por isso, é interessante seguir aquela velha máxima do xadrez: encontrou um lance bom, procure um que seja ainda melhor!

Observe esse diagrama:

ataque-tatico

   Dsj09b x Boris_Mcqueen (chess.com)

É a vez das negras, e nós estamos estudando as lógicas da matriz tática na avaliação de posições no xadrez. Vamos tentar observar e descrever a posição. Primeiramente, nota-se que as brancas têm 7 peões e do esquadrão inicial só não têm mais o bispo de casas brancas e um cavalo. Em seguida, é possível observar nas negras a mesma relação material, porém o modo como cada peça está situada no tabuleiro pode determinar se existe uma vantagem ou não. Seguindo a sugestão do artigo anterior, comecemos pelos reis. O branco está em “h1” e o negro está em “c8”, isso permite supor, sem conhecer a história dessa partida, que houve roque de lados opostos durante a disputa, mas não há confirmação disso. Aparentemente ambos estão protegidos.

Nas negras, os peões de “b” e “a” estão na posição inicial, há peões dobrados na coluna “e” e peões que avançaram pouco nas colunas “g” e “h”, uma e duas casas respectivamente. Na posição das negras, há pelo menos três peças que de momento não estão protegidas por nenhuma outra, são os peões “e6” e “g6” e a torre em “f8”. No lado branco da força temos peões que avançaram duas casas nas colunas “b”, “c” e “e”, peões na posição inicial em “f” e “g” e o peão da coluna “a” que avançou somente uma casa. A única peça que não tem uma proteção direta é a torre da coluna “b”.

Considerando as damas, a negra está à frente do rei e a branca está em “e2”. Repare que não estou seguindo à risca a tarefa de descrever, por que estou dizendo “peões que avançaram duas casas”, por exemplo. Desse modo, posso afirmar que ambas estão restritas, pois elas têm poucas possibilidades de movimento em casas desocupadas.

Mas e como a matriz tática poderia ser utilizada para elaborar um plano nessa posição? Observe a coluna “f”, ela se apresenta semiaberta, pois há somente um peão branco, o cavalo negro e a torre negra que estão posicionados ali. Onde está o peão é a casa “f2”, imediatamente ao lado da dama branca, que também sofre a ação do bispo de casas negras situado em “d4”. Ora, pois então se pudéssemos por a torre ali, ganharíamos um peão e poderíamos ganhar um tempo sobre a dama adversária, além de elevar a pressão no sistema branco. Certo. Mas repare na coluna “h”, se não existissem os dois peões o rei branco estaria em xeque. Que movimento poderia permitir essas duas situações ao mesmo tempo e obrigar o adversário a fazer uma escolha ruim? A matriz tática tem a resposta, é o lance “Ng4”.

O cavalo negro estando em “g4” aumenta para 3 o número de peças negras agindo sobre a casa “f2” e a dama branca não pode captura-lo sem ser recapturada em seguida, resta para as brancas enfrentar essa ameaça a opção de capturar com o peão “h”, que pode ser recapturado em seguida liberando a coluna “h” para o xeque da torre negra e também a opção de posicionar a torre em “f1”.

Nessa partida as brancas escolheram tomar com o cavalo com o peão “h” e as negras escolheram recaptura-lo dando xeque com a torre. Contudo, ao invés disso, elas poderiam ter ameaçado a dama branca com o lance “Rxf2” aumentando a pressão nessa região do tabuleiro. A seguir vos mostro algumas sequências que poderiam ocorrer após “hxg4”.

  • Feita no jogo: 1 … Ng4 2. hxg4 hxg4+ 3 Kg1 Rxf2 4 Be3 Rxe2 e as brancas abandonaram.
  • Com “Rxf2” no lugar de “hxg4” ( 1… Ng4 2. hxg4 Rxf2 3. Qe3 Bxe3 4. Bxe3 hxg4+ 5. Kg1 Ra2 6. Ra1 Rxa1 7. Rxa1 Qd8 8. Re1 Qd3 9. Nf1 Qxa3 10. b5 cxb5 e segue com média de -5,0 a – 7,0 de vantagem negra)

Não esqueçam que também existe uma sequência colocando a torre em “f1”, que levando a diante no engine seguiram 72 lances até o mate das negras. Isso comprova que, de fato, Ng4 era um lance bom naquela altura. Foi um lance tático que mudou a história do jogo, tanto na forma como ocorreu ou na forma que a engine seguiria. Desse modo, se verifica o que foi dito no artigo sobre essa matriz, ela visa criar pequenas revoluções que trazem o jogo a nosso favor.

Observe que o jogador de brancas não viu o simples “Rf1” que resolveria tudo, talvez a possibilidade da sua dama vir a ser ameaçada em seguida tenha interferido negativamente na sua avaliação. Sua percepção talvez tenha ficado presa às colunas “f” e “h” e daí tenha se originado o erro. É por isso que esta série de artigos surgiu, para nos tentarmos compreender essas pequenas nuances que por vezes nos levam à vitória ou à derrota no xadrez. Por ora, seguimos estudando: como avaliar uma posição no xadrez? Como elaborar um plano no xadrez? Como calcular no xadrez?

Fica a dica: pare, observe, avalie e reflita. E só depois, mova seus peões!

Alexandre Herzog

2 comentários em “Como avaliar uma posição no xadrez – parte 3 – Sob uma perspectiva tática

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